05 maio 2012

Crueldade

Eu acho impressionante como as pessoas conseguem ser cruéis. Acabei de assistir ao filme Jean Charles, que conta a história de um eletricista de uma cidadezinha de Minas Gerais, que foi trabalhar em Londres e acabou sendo executado dentro do metrô porque foi confundido com um terrorista. Os policiais britânicos que assassinaram o rapaz fizeram isso porque em países que lidam com o terrorismo, digamos assim, se admite a flexibilização de uma série de garantias individuais quando há suspeita de terrorismo. 
No caso de Jean Charles a história tornou-se trágica porque a super inteligência da Scotland Yard encontrou um cartão de academia na mochila com explosivos que não detonaram - que foi deixada na estação de metrô no dia anterior - no qual constava o endereço do prédio - sim, um edifício com vários apartamentos - onde Jean morava. 
Tivessem feito a investigação devidamente, e executado o verdadeiro terrorista, teria sido não uma  desgraça, mas uma solução. Não, eu não defendo o Direito Penal de Terceira Velocidade - que é justamente essa flexibilização das garantias individuais - mas o que eu quero mostrar é que a mesma história pode ter desfechos diametralmente opostos. 
O que é difícil entrar na minha cabeça, contudo, é a crueldade que acomete algumas pessoas. Eu ia escrever "crueldade humana" mas me recuso a aceitar que a crueldade seja algo inerente à minha espécie. 
Eu explico, logo que acabei de ver o filme, entrei no meu perfil no Filmow para atualizar minha lista de filmes já vistos. Entrei na página do filme e comecei a ler os comentários das pessoas. Primeiro aqueles comentários inúteis porque as criaturas partem do pressuposto de que filme brasileiro não presta então já vêem com má-vontade, na expectativa de caçarem os defeitos. Mas ok, cada um extrai de um filme o que é capaz  mais lhe apetece. 
Mas eis que me deparei com os comentários cruéis: as pessoas diziam que o filme não tinha valor porque tentava transformar um "trambiqueiro" em um herói "porque morreu". Às vezes dá vontade de dizer: criatura, e desde quando se mata um ser humano por causa de trambiques?? Gente, ajudar brasileiros com visto/passaporte falso é crime passível de morte em que lugar do mundo, pelamordedeus?   
Não há como não se chocar com um ser humano que é brutalmente assassinado quando não deu o mínimo indício de que seria uma ameaça pra quem quer que fosse!! 
Sem contar que o filme é de uma sensibilidade ímpar, e longe de querer "enaltecer um trambiqueiro" mostra um ser humano - que por isso mesmo erra e acerta -  que não era nenhum santo, mas era solidário e trabalhador, e que de forma alguma merecia morrer assim tão jovem, muito menos desta forma.
Não, ele não foi herói, não virou mártir e nem pediu pra fazerem um filme com a vida ele. Então, antes de fazer discursozinho patético pense que podia ser você no lugar dele! 

 Vale muito à pena ver:

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